Quando morávamos em Taquara, sempre ajudávamos a família de uma mulher que os meus pais conhecem há anos. Eles são em 4 pessoas, morando numa minúscula casa. Os parentes moram todos próximos, em casas uma do lado da outra, todas praticamente grudadas ou separadas por um corredor. É tudo amontoado mesmo, sem muito espaço nem para passar. Assim que nos mudamos para Parobé pedimos para eles nos visitarem frequentemente para que pudéssemos continuar ajudando, acontece que ninguém nunca mais apareceu. Por isso, todo Natal nós os visitamos, levamos não somente comida, mas também tiramos roupas e sapatos que estão em desuso para doar a quem mais precisa que nós.
Neste ano, assim como no ano passado, minha tia quis ir ajudar também, levando biscoitos feitos por ela, materiais escolares, calçados e mais roupas. Os anos podem continuar passando e eu sempre ficarei realizada ao ver a alegria em seus rostos quando encostamos o carro com todos eles nos reconhecendo.
- Eu sabia que viriam, vocês sempre aparecem, são como anjos, disse a anfitriã daquele lar, a conhecida dos meus pais em profunda alegria.
Um ano já havia passado desde a última visita, sendo que todos estavam cheio de novidades para nos contar. A cada passo que eu dava, me afastando do carro e indo em direção da casa, aquele aperto no peito começava a me esmagar. Eu escutava as conversas das pessoas que estavam ao meu redor, aí decidi não prestar muita atenção nisso. Queria analisar em volta, as casas que ali estavam uma colada na outra, com muito mais gente do que a capacidade. Uma mistura de gato, cachorro, galo, galinha e papagaio que já estava difícil desviar para passar ou imaginar como sobreviviam naquele apertamento.
Quando ajudei a carregar as sacolas para dentro, só conseguia me concentrar naquele calorão, no tal calor infernal que fazia em qualquer lugar que estivéssemos, não sabendo como conseguiam sobreviver. Logo que a minha prima pediu um copo de água, nos direcionamos para a cozinha que tinha sido reformada. Era com muita alegria que nos convidaram para mostrar o novo ambiente. Sem dúvida era um pouco maior do que a antiga, mas continuava não cabendo todos ali. Uns permaneceram na rua, outros na nova cozinha enquanto conversávamos.
Aquela casa de forro baixo, papelão nas paredes e uns toco de madeira encostados uns nos outros é que davam sustento aquele lar. Segundo o que a minha mãe me disse, as coisas estavam melhorando aos poucos, mas ainda era triste demais aquelas condições, tudo continuava tão crítico. Será que tinha como piorar?
Quando a Maiara de 13 anos, que é neta daquela tal conhecida dos meus pais disparou que desde que havíamos estado lá ela havia se casado com um menino de 16 anos, esteve grávida porém acabou perdendo o filho com dois meses de gestação sem nem saber o real motivo do acontecido eu só pensava: Meu Deus, meu Deus, me Deus. Eu sinceramente não sabia o que dizer. Eu não sabia se parabenizava, se aconselhava para ela começar a se cuidar agora para não engravidar tão jovem novamente ou se dizia que deveria estudar para prosperar um futuro melhor. Fiquei pasma, quieta na minha, perdida nos meus pensamentos. Era muito para processar, muita informação para digerir. Esbocei um sorrisinho mas não me atrevi a dizer nada, definitivamente não era hora nem lugar para expressar minha opinião.
Ficamos pouco tempo lá, mais ou menos meia hora, até que uma vizinha nos gritou para mostrar sua filha de dezoito anos juntamente com seu netinho de 4 anos. Aquelas conversas sem perspectiva de um futuro melhor me deixaram triste, aliás, me deixam triste até hoje. Desconhecia-se outra vida, era apenas aquilo lá. Não tinha mais o que esperar. O negócio era arrumar um marido, ter um(ns) filho(s) e sofrer. Sofrer muito. A vida para eles era realmente difícil, sofrida, injusta. O negócio era lutar até que tivessem forças. Ninguém apresentava uma segunda possibilidade, uma luz no fim do túnel que fosse. Eu gostaria de ajudar mais, com muito mais. Queria poder dar para aquelas pessoas um futuro ou a esperança de dias melhor, mas eu não posso, não tenho como. Se eu tivesse condições dava para aquela família uma casa com muitos tijolos, janelas de verdade, piso, lâmpadas, tudo de verdade. Eles mereciam algo melhor, mais digno.
O tempo que fiquei lá foi suficiente para voltar pra casa triste, agoniada, totalmente sem palavras. Acabei sendo a primeira a entrar no carro, talvez tentando fugir dos meus pensamentos que me atordoavam tanto. Neste momento acabei percebendo quando a minha mãe entregou dinheiro para comprarem um botijão de gás para caso não pudessem fazer a ceia de natal, então ousei fazer uma pergunta pra lá de inconveniente:
- Com quantos reais vocês passam o mês? disparei sem pensar muito a respeito.
- Olha minha filha, nós ganhamos aquela bolsa família de R$ 100,00 reais e o meu irmão junto com os meninos catam papelão para dar uns troquinhos a mais no final do mês. A nossa sorte são as pessoas que ajudam como vocês. Um dá um fogão velho, outro dá uma panela, alguns dão comida, ajudam com um pouco de dinheiro, só que eu queria mesmo era voltar a trabalhar, não tô conseguindo serviço como faxineira em lugar nenhum.
- Se Deus quiser esse ano que vem será mais abençoado. Espero que consiga um serviço e as coisas melhorem, se Deus quiser. Vão nos visitar, peguem um ônibus que a gente ajuda vocês como pudermos, mas é para irem mesmo, não ficar só prometendo, eu respondi.
Um dos filhos da Rosa, aquela mulher que comentei até agora, é um menino de 8 anos que ficou tão encantado com os materiais escolares que ganhou que era um das poucas coisas que me alegraram. Os cadernos recheados de adesivos lhe fizeram tão bem que não encontro uma palavra para descrever aqui a faceirice que ele expressava. Ouvi a minha tia falar bem baixinho no seu ouvido:
- Estuda bastante, estuda muito para você conseguir um bom emprego ou ser alguém famoso para ganhar bastante dinheiro. Mas é para estudar muito, viu?
Assim que todos entraram no carro, o meu coração aquietou-se um pouquinho por causa da boa ação que fizemos. Como é bom ver alguém sorrir sabendo que tiramos um pouco o peso daqueles ombros calejados. Eles terão comida para uns quantos dias, pelo menos fome não passarão tão rapidamente, era só nisso que eu pensava. Voltei divagando enquanto todos conversavam. Aquele era um momento meu, uma hora de reflexão. Segui dirigindo até encontrar a estrada que me trazia de volta para casa sem escutar absolutamente nada do que continuavam a falar.
Quando ajudei a carregar as sacolas para dentro, só conseguia me concentrar naquele calorão, no tal calor infernal que fazia em qualquer lugar que estivéssemos, não sabendo como conseguiam sobreviver. Logo que a minha prima pediu um copo de água, nos direcionamos para a cozinha que tinha sido reformada. Era com muita alegria que nos convidaram para mostrar o novo ambiente. Sem dúvida era um pouco maior do que a antiga, mas continuava não cabendo todos ali. Uns permaneceram na rua, outros na nova cozinha enquanto conversávamos.
Aquela casa de forro baixo, papelão nas paredes e uns toco de madeira encostados uns nos outros é que davam sustento aquele lar. Segundo o que a minha mãe me disse, as coisas estavam melhorando aos poucos, mas ainda era triste demais aquelas condições, tudo continuava tão crítico. Será que tinha como piorar?
Quando a Maiara de 13 anos, que é neta daquela tal conhecida dos meus pais disparou que desde que havíamos estado lá ela havia se casado com um menino de 16 anos, esteve grávida porém acabou perdendo o filho com dois meses de gestação sem nem saber o real motivo do acontecido eu só pensava: Meu Deus, meu Deus, me Deus. Eu sinceramente não sabia o que dizer. Eu não sabia se parabenizava, se aconselhava para ela começar a se cuidar agora para não engravidar tão jovem novamente ou se dizia que deveria estudar para prosperar um futuro melhor. Fiquei pasma, quieta na minha, perdida nos meus pensamentos. Era muito para processar, muita informação para digerir. Esbocei um sorrisinho mas não me atrevi a dizer nada, definitivamente não era hora nem lugar para expressar minha opinião.
Ficamos pouco tempo lá, mais ou menos meia hora, até que uma vizinha nos gritou para mostrar sua filha de dezoito anos juntamente com seu netinho de 4 anos. Aquelas conversas sem perspectiva de um futuro melhor me deixaram triste, aliás, me deixam triste até hoje. Desconhecia-se outra vida, era apenas aquilo lá. Não tinha mais o que esperar. O negócio era arrumar um marido, ter um(ns) filho(s) e sofrer. Sofrer muito. A vida para eles era realmente difícil, sofrida, injusta. O negócio era lutar até que tivessem forças. Ninguém apresentava uma segunda possibilidade, uma luz no fim do túnel que fosse. Eu gostaria de ajudar mais, com muito mais. Queria poder dar para aquelas pessoas um futuro ou a esperança de dias melhor, mas eu não posso, não tenho como. Se eu tivesse condições dava para aquela família uma casa com muitos tijolos, janelas de verdade, piso, lâmpadas, tudo de verdade. Eles mereciam algo melhor, mais digno.
O tempo que fiquei lá foi suficiente para voltar pra casa triste, agoniada, totalmente sem palavras. Acabei sendo a primeira a entrar no carro, talvez tentando fugir dos meus pensamentos que me atordoavam tanto. Neste momento acabei percebendo quando a minha mãe entregou dinheiro para comprarem um botijão de gás para caso não pudessem fazer a ceia de natal, então ousei fazer uma pergunta pra lá de inconveniente:
- Com quantos reais vocês passam o mês? disparei sem pensar muito a respeito.
- Olha minha filha, nós ganhamos aquela bolsa família de R$ 100,00 reais e o meu irmão junto com os meninos catam papelão para dar uns troquinhos a mais no final do mês. A nossa sorte são as pessoas que ajudam como vocês. Um dá um fogão velho, outro dá uma panela, alguns dão comida, ajudam com um pouco de dinheiro, só que eu queria mesmo era voltar a trabalhar, não tô conseguindo serviço como faxineira em lugar nenhum.
- Se Deus quiser esse ano que vem será mais abençoado. Espero que consiga um serviço e as coisas melhorem, se Deus quiser. Vão nos visitar, peguem um ônibus que a gente ajuda vocês como pudermos, mas é para irem mesmo, não ficar só prometendo, eu respondi.
Um dos filhos da Rosa, aquela mulher que comentei até agora, é um menino de 8 anos que ficou tão encantado com os materiais escolares que ganhou que era um das poucas coisas que me alegraram. Os cadernos recheados de adesivos lhe fizeram tão bem que não encontro uma palavra para descrever aqui a faceirice que ele expressava. Ouvi a minha tia falar bem baixinho no seu ouvido:
- Estuda bastante, estuda muito para você conseguir um bom emprego ou ser alguém famoso para ganhar bastante dinheiro. Mas é para estudar muito, viu?
Assim que todos entraram no carro, o meu coração aquietou-se um pouquinho por causa da boa ação que fizemos. Como é bom ver alguém sorrir sabendo que tiramos um pouco o peso daqueles ombros calejados. Eles terão comida para uns quantos dias, pelo menos fome não passarão tão rapidamente, era só nisso que eu pensava. Voltei divagando enquanto todos conversavam. Aquele era um momento meu, uma hora de reflexão. Segui dirigindo até encontrar a estrada que me trazia de volta para casa sem escutar absolutamente nada do que continuavam a falar.
